Eu, no Correio da Manhã !?

[PT] Na revista de Domingo do Correio da Manhã, num artigo sobre bloggers Portugueses que têm em comum o facto de viverem no estrangeiro. Obviamente com 4 páginas para o artigo e a quantidade de material dos vários emigro-bloggers mais fotos e grafismos, não houve muito “espaço de antena” para todos. Por isso publico no texto abaixo o integral da biografia que enviei à simpática jornalista responsável pelo artigo, Myriam Zaluar. Obrigadíssimo também, Marta Simões, por “sacaneares” e me enviares por email as páginas do artigo já que por cá conseguiria certamente encontrar o jornal, mas com mais de um dia de atraso.

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[ Clicar para descarregar o PDF do artigo ]

>> “mini” biografia abaixo:

O meu nome é Fernando Colaço (que aqui insistem em pronunciar Cola Cao) e sou um Alentejano, de Castro Verde, que se fartou de perder tempo a tentar lutar por uma carreira no país das cunhas, das conveniências, dos “grandes” que fazem dinheiro por não pagar os serviços prestados pelos “pequenos” e onde carreira significa trabalhar 15 anos com o mesmo ordenado, sem promoções e a ver os primos, sobrinhos e amigos da tia do director a subir na empresa. Trabalhei para vários chefes que não gostavam de pagar (pelo menos a horas) e acabei por constituir a minha própria empresa, o que não melhorou a situação, pois perdia mais tempo e dinheiro a telefonar e a correr atrás dos clientes para estes pagarem. Felizmente estava nessa altura em Elvas e os clientes Espanhóis até pagavam a horas.

De qualquer forma estava cada vez mais farto como as coisas funcionavam no país. A minha empresa (em que eu era designer gráfico, webdesigner, programador, animador 3D, produtor de video e audio, etc e ocasionalmente subcontratava alguns freelancers) durou cerca de 8 anos no total. Nos últimos anos da empresa, fui também militar contratado depois da recruta obrigatória que me enterrou ainda mais as finanças. Acabei por fazer isto para não correr ainda mais riscos graças aos clientes factura-fóbicos com a típica desculpa depois de 50 horas de trabalho terminado: “mas isso é só carregar em botões e mexer no rato…”. Eventualmente, fartei-me “da tropa” ao fim de quase 5 anos (nem sei como), embora me deixasse tempo e não exigisse grande esforço intelectual ou físico (até engordei alguns 12 quilos). Como sem este segundo ordenado as coisas estavam a ficar precárias apesar de fluir bastante trabalho, e estava a ficar farto de viver para trabalhar para pagar as contas ao final do mês, resolvi atirar-me de cabeça e sondar outros países. Depois de uma visita de algumas semanas a Genève, na Suiça, só voltei a Portugal para fazer as malas e mudar-me para aqui, onde estou há 4 anos. O orçamento para os 2 meses que planeei para busca de emprego foi um cálculo dos maus pois só ao fim de 7 meses e a recusar dezenas de entrevistas em que a oferta eram trabalhos no departamento de limpezas ou na construção civil mesmo sem o meu CV ou Portfolio ter nada a ver com isso é que consegui o meu primeiro emprego.

Felizmente, entretanto voluntariei no IPB (International Peace Bureau) que me permitiu alargar bastante a minha rede de contactos e utilizar o telefone e a net para continuar a procurar emprego. Acabei por ser entrevistado e entrei para uma agência de freelancers que me enviou no dia a seguir para uma agência de publicidade multinacional (Young & Rubicam) onde acabei por ser contratado e trabalhei mais de 3 anos no total. Comecei como Designer Gráfico e Webdesigner, depois também como Programador (Flash e departamento interactivo) e acabei por ser promovido a Director Artístico, cargo que exerci nos últimos 2 anos até que decidi descartar o stress da publicidade e aceitei recentemente uma proposta (daquelas) para saltar para o ramo financeiro (que é o ramo ideal para se trabalhar na Suiça, garanto). Estou portanto há pouco mais de 4 meses na Bedrock Realtime, a desenvolver software para o campo bancário, bolsa, fundos de investimento, forex e por aí adiante. E estou muito satisfeito com a minha decisão.

Como tinha amigos constantemente (no Messenger) a perguntar o que eu andava a fazer por aqui e andava também com vontade de publicar algumas das “alarvidades” em pontapés na língua portuguesa que se encontram em abundância por cá decidi começar com o Blog. Também servia como terapia para descarregar do stress do trabalho. O Blog começou a ter bastante sucesso rapidamente, nem sei bem porquê, mas decididamente depois do post da Ninfa Artemis aumentou drasticamente o número de visitantes e subscritores. O Blog até nem tem nenhum tema muito concreto, aliás, o título diz tudo e acabo por ter uma salada de eventos aleatórios, fotos e videos que podem ter graça ou não, gadgets (pois, sou um coleccionador inveterado, principalmente das inúteis) e a categoria “Emigrantolândia” que já me valeu uma ameaça graças a uma tabuleta de um restaurante perto da minha casa, com um erro daqueles mesmo brutais (que acabei por retirar do blog… alguém enviou ao proprietário um email com o post e este reconheceu a minha foto noutro post e fez-me uma típica “espera”. Não aconteceu nada, mas levei um sermão de “no norte escreve-se assim” e o erro ainda está no letreiro eté hoje). Definitivamente é esta última categoria que arrasta mais visitas portuguesas para o Blog, que neste momento tem cerca de 550 diárias. Tenho também mais de 100 subscritores via e-mail, algo que estava longe de estar à espera pois pensava que só meia dúzia de amigos e colegas meus iam visitar de vez em quando. Via RSS nem faço ideia. Algo que também arrasta muitas visitas são os habituais videos de partidas que prego no trabalho de vez em quando, ou melhor, frequentemente.

Curiosamente a maior parte da audiência do Blog não é poruguesa, daí a linguagem principal ser inglês, pois acaba por ser mais universal e compatível com quase toda a gente, excepto a categoria “Emigrantolândia”. Além disso nem me habilitava a tentar escrever no meu terrível francês, pois como sempre trabalhei em empresas internacionais e em Genève se sobrevive perfeitamente a falar inglês, acaba por ser a minha linguagem de todos os dias e o meu francês enferrujado raramente é utilizado.

Ultimamente tenho acabado por escrever cada vez mais posts sobre a sociedade e a economia na Suiça, que foram um verdadeiro choque para mim depois de chegar aqui. Confesso que antes de tomar essa decisão tinha apenas aquela ideia do emigrante no seu carro vermelho (alugado) com o seu farfalhudo bigode a ouvir Emanuel aos berros com os vidros abertos e a fazer rallies em frente aos cafés e nas rotundas. Embora essa personagem mítica seja abundante, há felizmente algumas excepções por aqui e conheci bastantes através do Blog.

Para quem não conhece o país, ou partilha da mesma ideia que eu tinha, aconselho vivamente uma visita ou “prospecão de mercado”. Confesso que em Portugal nunca me preocupei com o termo “qualidade de vida” pois era algo que apenas conhecia teoricamente. Agora, depois do choque, tenho a certeza que não volto ao país, pelo menos para trabalhar. Nem me passa pela cabeça. E em qualidade de vida não me refiro aos ordenados e promoções frequentes e bónus por mérito, refiro-me a um sistema de saúde e educação que funcionam, uma segurança social e sistema de emprego eficazes, do civismo, dos espaços verdes e dos fins de semana que se passam a descansar ou viajar por se ter possiblidade de o fazer. No meu caso, nesta altura do ano, faço uma escapadinha todos os fins de semana para os Alpes para praticar o meu vício na neve: Airboard (ver blog) e no Verão quase não passo um Domingo sem subir (e descer, eventualmente) uma montanha a pé (algo que não deve haver muitos alentejanos a fazer). Este verão a caminhada vai ser alternada com vela, no lago. E se me aborrecer estou a poucas horas de voo de qualquer capital Europeia. E as pessoas aqui são longe de ser frias e arrogantes como a maioria dos emigrantes portugueses (que se recusam a integar no sistema) me tentavam dar ideia.

Não queria soar antinacionalista, mas sinceramente cada vez estou mais longe de ser patriota. Entretanto, vou tentar não limpar as orelhas com a unha no meio da rua, não chamar “pubela” ao caixote do lixo nem fazer uma permanente na parte de trás do cabelo. Au revoir.

8 Responses to “Eu, no Correio da Manhã !?”

  1. Sonia SWEDEN Mac OS X Mozilla Firefox 2.0.0.11 Says:

    5% da verdade…soa bem a Portugal.
    Considere yourself challenged. I’ve challenged you with the 7 truths in my last post.

  2. Marta PORTUGAL Windows XP Internet Explorer 6.0 Says:

    Ora Fernando Cola cao! Não tem de quê! Disponha! ;p

  3. Marisa Borges MACAO Windows XP Internet Explorer 6.0 Says:

    Dá-le! Dá-le!
    Só acho que devias ter enviado aquela foto do hi5 em que estás a fazer de cowboy dominando uma cabritinha loira! Digo isto porque assim ficava claro que és um tuga que enfrenta os obstáculos e que és capaz de dominar as mais estranhas e difíceis situações….tam como o tens feito até aqui! lol
    Dava mais credibilidade….mas não! Mandasta-me a foto de sempre e que ainda por cima tem como pano de fundo umas montanhas e céu azul! Que chatice…lol

  4. Fomos... IRELAND Windows XP Mozilla Firefox 2.0.0.11 Says:

    Excelente post Fernando, tocas em alguns topicos que ja’ me passaram pela cabeca ou ainda passam. A tipica imagem do emigrante portugues e’ algo que eu tinha antes de sair do pais - e ainda muita gente em Portugal tem.

    Para nao falar disto “Agora, depois do choque, tenho a certeza que não volto ao país, pelo menos para trabalhar. Nem me passa pela cabeça. E em qualidade de vida não me refiro aos ordenados e promoções frequentes e bónus por mérito, refiro-me a um sistema de saúde e educação que funcionam, uma segurança social e sistema de emprego eficazes, do civismo, dos espaços verdes e dos fins de semana que se passam a descansar ou viajar por se ter possiblidade de o fazer.” - tiras-me as palavras da boca!!

    Grande abraco ,
    Fomos

  5. admin SWITZERLAND Mac OS X Mozilla Firefox 2.0.0.11 Says:

    Xiiii. É bom ver que há pessoal que lê os meus gigantescos posTestamentos.
    Obrigado a todos pelos vossos comentários.

  6. Eu mesmo PORTUGAL Windows XP Internet Explorer 7.0 Says:

    Conheço alguns emigrantes portugueses actuais em França, na Alemanha, Bélgica, Suiça, Canadá.

    São pessoas civilizadíssimas. No aspecto.
    Em termo de invólucro, cinco estrelas.

    Nenhum tem dentes podres.
    Idem para o excesso de peso.
    Todos vomitam quando falam connosco no Verão e comparam o nosso sistema de saúde com o deles.
    Quando observam alguém a atirar lixo para o chão. Ou mesmo quando vêem atirar lixo para o caixote mas dentro de um saco de supermercado.
    Esta mania de cuspir para o chão.
    O hábito arreigado dos nativos em consumir doses exageradas de cerveja nos almoços de sábado.
    O cheiro a peixe e frango assado.

    Ficam chocados como podem as pessoas em Portugal ter casa própria, carros, bens de consumo melhores que os seus, a ganhar tão mal. Como podem abastecer-se no supermercado, se os produtos são os mesmos que lá fora, mas mais caros?

    Então não sabem que somos, simplesmente, Portugueses?
    Que fazemos milagres?
    Nunca ouviram falar na Nossa Senhora de Fátima?

    Consideram execráveis as nossas idiossincrasias, após uns anos de ausência.

    Mas se atentarmos melhor, se nos aproximarmos mais, se formos por exemplo com eles à pesca ou à praia, ficamos algo desiludidos.

    Conheceremos pessoas algo amargas, com uma linguagem grosseira, a falar um português calão, o qual já nem as etnias mais isoladas utilizam:
    «Arrete! Arrete! Ou paras imediatamente ou vais cair e partir os cornos de cima dessa morraça!»

    Espancam os filhos de uma forma despropositada. Não sei se fazem aquilo habitualmente ou apenas no Verão, quando estão cá. Se for assim, está encontrada a explicação pela qual as gerações mais novas nunca querem regressar.

    O que anda a fazer a RPTI com o nosso dinheiro? Não podia transmitir alguma coisa civilizada, actual, dos nossos valores e hábitos de agora a essas pessoas?

    Ganharam algum dinheiro, mas perderam bastante em educação.
    Não acompanharam o pulsar da nação, nestas últimas 2 décadas de «luzes».

    Falta-lhes uma base educacional. E a educação é tudo.

    Entre os emigrantes actuais e os antigos, prefiro, claramente, os últimos.

    Conheço alguns emigrantes do tempo da mala de cartão. Dos que nunca chegaram a aprender patavina de francês. Conheço um tipo que esteve durante 20 anos em França e apenas aprendeu 2 palavras:

    Vanblan e Vanruge (Vin Blanc e Vin Rouje , ou seja, Branco e Tinto)

    E outro ainda que aprendeu uma só: Beaujolais

    (É também o nome de uma marca de vinho, e creio que de uma terra francesa, não tenho a certeza)
    Era conhecido pelos franceses na localidade onde morava por Monsieur Beaujolais. Está visto que comprava apenas um único produto no café, na taberna, na mercearia lá do sítio.

    Sei também de uma história de ternura, de uma mulher que foi trabalhar na Alemanha como empregada doméstica. E que, logo na primeiro dia, com o corpo dorido de tantas limpezas, ouviu a «sua Frau» dizer-lhe, após consulta num dicionário Alemão-Português, que já não precisava mais dela.
    Correu para casa, abraçou-se ao marido e aos filhos, e chorou, chorou, contou a todos que tinha sido despedida. E logo no primeiro dia.

    O marido, já com mais uns anos de emigração que ela, e com uma dignidade do tamanho da Alemanha, pegou nas pernas e foi perguntar o porquê do despedimento da sua mulher.

    Ficou então a saber, que a Senhora Alemã, apenas lhe disse que podia ir embora, mas por aquele dia, dado que nunca tinha visto ninguém trabalhar tanto e tão bem. E que a esperava no dia seguinte.

    Nada tenho contra os emigrantes portugueses. Apenas gostaria que tivessem mais alguma humildade.

  7. Proximo Domingo, dia 27, no Correio da Manha « Fomos… WordPress MU Says:

    […] EDIT: O Fernando Colaço tem uma opiniao ao artigo aqui, incluindo um pdf com o scan das paginas […]

  8. zita PORTUGAL Windows XP Internet Explorer 6.0 Says:

    olá! sou portuguesa vivo e trabalho em lisboa numa empresa inglesa, vivi durante 6 anos em inglaterra tirei curso tec profissional de secretariado em portugal….tenho namorado que vive na suiça, quero muito ir viver para suiça mas tenho receio porque meu francês é pessimo, gostava da tua opinião se achas possivel eu encontrar emprego numa empresa inglesa…gostava se possivel que me ponhas um pouco a par da realidade actual na procura de emprego na suiça para estrangeiros que não falam francês. obrigado!!

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